Há 45 anos, Festival de Montreux, na Suíça, é sinônimo de música de qualidade e sem preconceito

Enviada por: Alexandre Portela
Data: 26/12/2011 21:34:03
Postado em: Queen Outros

Fundador do Festival de Montreux, Claude Nobs saiu da cozinha para temperar um dos encontros mais célebres de músicos do jazz, pop e rock

Fundador do Festival de Montreux, Claude Nobs saiu da cozinha para temperar um dos encontros mais célebres de músicos do jazz, pop e rock

Às margens do Lago Geneva, ao pé dos Alpes, a pequena cidade suíça de Montreux é produtora de uvas, queijos e vinhos nobres, porém sua fama se deve mesmo ao festival de jazz que passou a sediar em 1967. A criação do evento, que em 2012 completará 45 anos de intensa atividade musical, se deve a Claude Nobs, um ex-cozinheiro e agente de turismo que teve a ideia de lançar o festival depois de uma temporada nos Estados Unidos, quando conheceu os irmãos turcos Ahmet e Nesuhi Ertegün, então proprietários da gravadora Atlantic.

Com o apoio de tão respeitados e poderosos amigos, Nobs voltou à Suíça disposto a transformar sua cidade natal em um centro para a divulgação do jazz. Com o sucesso da empreitada original, quando se apresentaram nomes como Charles Lloyd Quartet, Keith Jarrett e Jack DeJohnette, o festival não só ganhou expressão internacional, como se abriu para uma imensa gama de estilos e manifestações musicais.

Devido ao progressivo crescimento do público, há tempos o festival não se limita ao célebre cassino onde tudo começou, apresentando os shows de seus artistas em múltiplas locações como o Miles Davis Hall, o Auditorium Stravinski, o Montreux Jazz Café (hoje, uma franquia espalhada pelo planeta, ao modo do Hard Rock Café), o Convention Centre, o Cassino Barrière, o Studio 41 e o Montreux Jazz Club.

Desde 2004, com permissão dos artistas e suas respectivas gravadoras, parte do incomensurável arquivo dos shows ocorridos ao longo da história do festival vem sendo disponibilizada em CD, DVD, Blu-ray e MP3 pelo conglomerado inglês Eagle Rock Entertainment. Até a presente data, mais de 80 destes registros antológicos já vieram a público – inclusive, conforme atestam as materializações no Brasil, por meio de distribuição pela gravadora ST2, dos recém-lançados CDs e DVDs de Status Quo, Gary Moore, Paul Rodgers & Friends, Rockpile e Average White Band.

PAUL RODGERS & FRIENDS – LIVE AT MONTREUX 1994

Apesar da grande disponibilidade de shows diversos do cantor inglês em DVD tanto aqui quanto lá fora, este lançamento se justifica plenamente por sua singularidade artística.     Em junho de 1994, para divulgar seu então recém-editado álbum Muddy Water blues, Paul Rodgers adentrou ao palco de Montreux na companhia de um megaestelar rol de convidados. Se sua banda de apoio já trazia Jason Bonham (ex-Bonham, ex-Led Zeppelin e futuro Black Country Communion, na bateria), Neal Schon (ex-Santana, ex-Journey, na guitarra) e John Smithson (ex-Ken Hensley Band, ex-Bonham), o que dizer das aparições ao longo daquele show de Brian May (Queen), Steve Kukather (Toto) e dos renomados bluesmen Eddie Kirkland, Robert Lucas, Sherman Robertson, Kenny Neal e Luther Allison?
No repertório, material que Rodgers imortalizou junto aos grupos Free e Bad Company é executado de forma vigorosa junto a standards do blues (Crossroads, Hoochie coochie man, Good morning little school girl, I’m ready). Em meio a múltiplos e faiscantes solos de guitarra, sobressai a voz poderosa e transbordante de feeling de Paul Rodgers – mais que Rod Stewart, Robert Plant, Mick Jagger ou Ian Gillan, um cantor que claramente não apenas se manteve no topo da forma ao longo de décadas, mas que conseguiu melhor do que todos os seus pares sumarizar a potência máxima e a testosterona do rock.

PICTURES – STATUS QUO LIVE AT MONTREUX 2009
São poucos os grupos de rock que podem comemorar 40 anos de estrada com dignidade. Pioneiros na arte de bater cabeça (filmagens do início de carreira mostram seus membros chacoalhando crânios pelo menos uma década antes do advento do heavy metal!); recordistas de vendas graças a 60 singles e mais de 35 álbuns cravados nas paradas de sua nativa Inglaterra (um recorde só batido pelos Rolling Stones), os veteranos músicos do Quo – como são carinhosamente chamados pelos fãs – realmente fazem por merecer respeito.Acostumado a receber críticas pelo aspecto repetitivo das suas composições, Status Quo prova em Pictures (editado aqui tanto em CD quanto em DVD) como aprendeu a tirar proveito dos eventuais defeitos. Em quase uma hora e meia de apresentação, as guitarras Telecaster dos fundadores Rick Parfitt e Francis Rossi desfecham hit após hit, sem pausas para fôlego. Um repertório empolgante que percorre as origens psicodélicas do quarteto (Ice in the sun, Pictures of matchstick men) até seu último sucesso (Beginning of the end, de 2007), sem deixar de fora o inexorável hard-boogie – Caroline, Down down, Rockin’ all over the world, Junior’s wailing – que lhes rendeu fama transcontinental, na década de 70.

ROCKPILE – LIVE AT MONTREUX 1980
Blues, pub-rock, rockabilly, power pop e rock & roll – ao modo de Chuck Berry, Buddy Holly e do cast da mítica Sun Records – faziam parte do cardápio servido pelo supergrupo inglês Rockpile. De vida breve (1976 a 1981), porém luminosa, este quarteto era formado pelos virtuoses Dave Edmunds (vocal, guitarra), Nick Lowe (vocal, baixo), Billy Bremmer (vocal, guitarra) e Terry Williams (bateria).Em 1980, no topo da forma, Rockpile tocou em Montreux um repertório mesclado entre temas de seu único álbum de estúdio (o genial Seconds of pleasure; inexplicavelmente jamais editado no Brasil) e material dos álbuns solo de Lowe e Edmunds, além de versões pinçadas de contemporâneos como Elvis Costello (Girls talk), Graham Parker (Crawling from the wreckage) e de suas mais gratas e primitivas influências (é de Jerry Lee Lewis a canção que fecha a mil por hora o set do grupo; Let’s talk about us). Curiosidade: além de ter integrado o grupo de rock progressivo galês Man, Terry Williams emprestaria suas baquetas para Dire Straits, Tina Turner, Bill Wyman, Dion, The Everly Brothers, B.B. King e Bob Dylan.

AVERAGE WHITE BAND – LIVE AT MONTREUX 1977
Considerada por muitos como a banda britânica que melhor se aproximou da soul-music norte- americana, a Average White Band surgiu ao final de 1972, na Escócia. Seu álbum de estreia para o selo MCA, Show your hand (1973), foi até bem recebido pela crítica, mas foi apenas quando se viu contratada pela Atlantic e lançou o bem azeitado Average white band (1974) que o grande público lhe deu atenção. Foi dessa gravação, aliás, que foi extraído o single racha-assoalho Pick up the pieces; êxito massivo nas paradas dos dois lados do Atlântico.Por ocasião do show registrado em Montreux, o baterista original, Robbie McIntosh (morto por overdose de heroína, durante uma festa, em 1974), havia cedido seu lugar para Steve Ferrone, porém a AWB continuava soando tão afiada quanto em seus primórdios. Funky até o talo, seu set no festival levou o público a dançar e aplaudir de pé, sob o empuxo de uma fieira de sucessos como Cut the cake, Work to do, Person to person e a infalível Pick up the pieces. Ao final, uma rendição impecável, com quase 12 minutos de duração, para I heard it through the grapevine, do mestre Marvin Gaye.

GARY MOORE – LIVE AT MONTREUX 2010

Morto trágica e precocemente, aos 58 anos de idade, em 6 de abril de 2011, o irlandês Gary Moore possuía um portfólio dos mais impressionantes. Ainda adolescente, ficou conhecido ao estampar um anúncio no tabloide inglês Melody Malker desafiando ninguém menos do que Alvin Lee – então reconhecido como o guitarrista mais rápido do mundo – para um “duelo de cordas”. Informado acerca da exímia habilidade do rival no instrumento, o então líder do Ten Years After preferiu não se arriscar e ignorou o repto. Ainda assim, a ousadia de Moore jamais seria esquecida.Para um guitarrista influenciado por Clapton, Hendrix e, em particular, Peter Green (de quem herdou a Gibson Les Paul que passou a empunhar dos 80 para cá), a música vertida por Moore só poderia soar como capturada para a posteridade em Live at Montreux 2010: pesada, hipereletrificada, devastadora. Presente em várias edições prévias do festival, Moore nos brinda lá com aquela que seria sua última apresentação oficial. No palco, ele eviscera sua Gibson sem dó ou piedade, extraindo frases velocíssimas, a ponto de induzir vertigem nos ouvintes. Se há pontos altos no show, estes haveriam de ser sua versão para o standard do blues Walking by myself (Jimmy Rogers), além de três canções inéditas – a saber, Oh wild one, Where are you now? e Days of heroes – e suas impactantes Over the hills and far away e Empty rooms.

Quem se apresentou em Montreux

Sigur Ros, Ella Fitzgerald, Tricky, Radiohead, Oscar Peterson, Van Morrison, Bootsie Collins, Etta James, Count Basie, Ice T, Johnny Cash, Ray Charles, Simply Red, Flaming Lips, Bob Dylan, Tony Bennett, Talking Heads, Mose Allison, Flora Purim, King Crimson, Peter Tosh, Underworld, Rory Gallagher, Nina Simone, The Roots, Maria Bethânia, Cassandra Wilson, Air, Prince, Saxon, Magma, PFM, Gnarls Barkley, Leonard Cohen, New Order, Paulinho da Viola, U.N.K.L.E., Sarah Vaughn, Chuck Berry, Muddy Waters, Wilco, Wu-Tang Clan, Elis Regina, Saxon, Mongo Santamaria, Carl Craig, Chico Science, Arcade Fire, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Massive Attack, Regina Spektor, Motorhead, John McLaughlin, Buddy Guy, Run DMC, Dexter Gordon, Sarah Vaughan, Soft Machine, Eric Clapton, João Gilberto, ZZ Top, Yes, Cypress Hill, Chico César, Jethro Tull, Jamiroquai, The Roots, Gilberto Gil e Roberta Flack, entre outros.

• Festival de lendas

• A história do Festival de Jazz de Montreux começa em 1967. O evento durou apenas três dias, tendo como destaques as performances do saxofonista Charles Lloyd e do pianista Keith Jarrett.
• Em 1971, Aretha Franklin se viu convencida a figurar como atração principal do festival daquele ano depois que Claude Nobs a presenteou com uma… caixa de chocolates!
• Em 1973, a artista folk e militante pacifista Joan Baez surpreendeu a todos quando chegou a Montreux montada em um cavalo.
• Foi um incêndio que consumiu parte do cassino de Montreux durante um show de Frank Zappa & The Mothers Of Invention que inspirou o Deep Purple a compor a antológica Smoke on the water.
• 1973 também foi o ano que assinalou a primeira aparição de Miles Davis em Montreux. O trompetista voltaria ao palco suíço para mais sete apresentações.
• Em sua juventude, Freddie Mercury, vocalista do Queen, viveu durante vários anos em Montreux. A cidade também serviu de inspiração para a música A winter’s tale, gravada pelo Queen no álbum Made in heaven, pouco antes da morte do cantor.


Fonte: www.divirta-se.uai.com.br





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