A tragédia de Mercury segundo um filósofo

Antonio Gonçalves Filho – O Estadao de S.Paulo

O jornalista e diretor de teatro francês Selim Rauer, um jovem de 32 anos conhecido por seus textos filosóficos e como encenador de autores difíceis como Büchner (Wozzek) e Bernard-Marie Koltès (Combat de Nègre et de Chiens), resolveu lançar há dois anos, na França, Freddie Mercury, a biografia do líder e vocalista da banda Queen, que agora chega ao Brasil pela Editora Planeta (tradução de Marly N Peres, 320 págs., R$ 49,90). O resultado é tão bom quanto seu primeiro romance, La Passion de Pier (edição Les Perséides, 2007), reflexão sobre a vida e o assassinato do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Em Freddie Mercury, Rauer não se limita a contar a ascensão e queda de um músico pop. Tenta entender o universo de um homem tímido e sofisticado que decidiu assumir a persona pública de um cantor de roupas extravagantes e repertório camp.

Foram 20 anos de carreira e mais de 300 milhões de discos vendidos desde que Farokh Bulsara, verdadeiro nome de cantor Freddie Mercury, formou o Queen no começo dos anos 1970 ao lado do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor. Fosse outro biógrafo, o livro teria começado justamente aí. No entanto, Selim Rauer fez o movimento inverso, voltando à infância do vocalista, morto aos 45 anos, para descobrir como os oito anos que estudou num colégio interno marcaram sua vida.

Em linhas gerais, o biógrafo mostra como Mercury nunca esteve em sintonia com o mundo nem com ele mesmo. Nascido em Zanzibar numa família de origem persa e bastante tradicionalista, o cantor desembarcou na Inglaterra em 1964 para estudar design, exatamente quando a arte pop dominava o cenário – visual e musical, ao promover o psicodelismo. Foi no Soho e na Tate Gallery que Mercury formou seu gosto de futuro colecionador de arte, enquanto lavava pratos no aeroporto de Heathrow.

Essa primeira parte da biografia é a mais atraente. A parte central (o início e a evolução da carreira) é menos interessante. Rauer reserva o melhor para o fim, contando como Mercury assumiu sua homossexualidade e enfrentou dignamente a aids, que o matou no Natal de 1991.

Fonte: www.estadao.com.br

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